Lembrava claramente de como antes, seus maiores desejos eram ter nós na garganta e borboletas no estômago. Queria ficar boba, se apaixonar à toa, amar sem limites. Desejava amores malucos, com histórias complexas para que tudo fosse sempre o mais lindo possível, como em filmes românticos. Queria ter uma história perfeitinha para contar aos netos, mais tarde.
Aliás, queria envelhecer ao lado da mesma pessoa que lhe tirasse o sono. E que ele ainda o fizesse, cinquenta anos depois. Mesmo quando engordasse, roncasse e quebrasse um copo. Que aquilo tudo continuasse sendo besteira.
Tinha feito tantos planos de viver de amor, viajar de sonhos e ter filhos por vontade apenas.
Mas a vida lhe tornou mais dura. Pra não dizer amarga. Cética, no mínimo.
Lembrou do amor que entregou à quem não soube respeitar. Muito menos amar de volta. Dos planos que teve que jogar no lixo enquanto buscava pequenos pedaços de coração para colar com saliva. Talvez por isso até hoje eles ainda não estivessem grudados completamente.
Ouviu tantas vezes dizer que tinha que continuar tendo esperança. Que o amor chegaria, e que seria tudo lindo e sonho. Sonho mesmo. Porque não existe.
Sempre que deixava a esperança entrar, era a decepção disfarçada de amor. Quebrou o coração mais umas quantas vezes, deixou cada vez menos o tal “amor” entrar.
Sabia que podia ser diferente.
Encontrou felicidade em outras coisas. Não admitia não ser feliz com o que tinha. Afinal, ela tinha tanto pra se orgulhar!
Focou no trabalho, e ganhou o cargo dos sonhos. Passou a ver mais a família, os amigos mais chegados. Filtrou os amigos, fez alguns para a vida toda. Passou a fazer mais do que gostava. Começou a se exercitar. Deu a volta ao mundo, conheceu mil pessoas.
Plantou uma árvore, escreveu um livro. E foi feliz sem ter um filho.
Entendeu enfim, que essas fórmulas de felicidade mal escritas estavam todas erradas. Escreveu sua própria fórmula, e foi viver dela.
E você? Bem que poderia a começar inventar a sua, não acha? Que tal Sair Daqui e começar?
Acho que dentre os sonhos de quase todas as “pessoas biologicamente maduras” (refiro-me àquelas com capacidade de cuidarem de si mesmas e talvez de outras) está a vontade de ser pai ou mãe.
Talvez se trate de uma percepção completamente errada de minha mente viajada, mas acho que há uma certa hiprocrisia quanto a ter filhos cedo. Pare pra pensar: Cada vez mais divórcios, discordância e violência. Todos os dias vemos assassinatos e poluição. E sempre tem menos amor que ontem.
Daí a ter um filho completamente desplanejado, inesperado e sem condições financeiras mínimas para dar um bom conforto para aquela pobre criança que virá à este mundo desvirtuado em que vivemos, é um ato insanamente hipócrito.
Claro que acidentes acontecem, e quase sempre são bem vindos. Não trataremos deles nesse texto. Nem daqueles indesejados, porque já entraríamos no assunto aborto, que por sinal é tema para outro post.

Eu confesso que nunca quis ter filhos. Nunca tive vontade de “sentir as dores do parto e cumprir meu papel de mulher”, tive a plena convicção de que não teria filhos por diversas razões. Dentre elas, algumas principais que seguem:
Medo de ser uma péssima mãe. Sempre tive jeito com crianças. Mas as dos outros. Do tipo que se devolve quando começa a encher muito o saco. Aliás, como eu poderia estar presente nos momentos importantes do meu filho com meus objetivos de carreira, que envolvem muito estudo e trabalho? Até que ponto ter um filho e deixar para outras pessoas a responsabilidade de cuidar dele?
Perder minha liberdade. Viajar quando der na telha, tomar uma cervejinha com os amigos sem hora para voltar ter meus momentos sozinha ficaria fora de cogitação. Acho que no fundo, medo da responsabilidade (que talvez seja a maior na vida de qualquer pessoa).
O mundo está uma merda, convenhamos. É para esse mundo que eu quero trazer uma criança? Um mundo onde educação é uma carteira de investimento oferecida por qualquer banco por aí? Onde política e honestidade não andam juntas? Onde a pressão do mercado de trabalho começa antes do que deveria? Onde amor e compaixão deram lugar ao dinheiro? Aqui, onde se ele não fizer parte dos mais fortes, pode acabar fazendo malabarismo no semáforo?
A infância não é mais a mesma. Eu (que só tenho 22 anos) cresci brincando na rua, rolava no chão por causa de futebol, pega-pega e esconde-esconde. Fazia amizades de carne e osso.
Hoje, meus primos mais novos são craques em video games. E suas relações de amizade quase sempre vem de Orkut, Msn, Twitter, Facebook…E a amarelinha? Se perdeu onde? Brincar é somente divertido quando na Internet? Como assim? o.O

Por fim, não gostaria de ver no rosto do meus filhos sinais do ceticismo aos sentimentos mais bonitos da humanidade. Não quero que ele tenha um precoce desdém a relacionamentos amorosos, uma precoce falta de fé na humanidade…
Não sei. Tudo isso me assombra, e muito.
E antes que me perguntem: Sim, eu terei filhos. E não será por obrigação.
Todos os itens acima não desaparecerão do meu caderninho mental de preocupações, mas eu sei que ao lado de quem se ama, podemos fazer nosso melhor para evitar que eles nos assombrem. Eu sei que seremos ótimos pais. Daqui alguns anos, é claro. (Né @rbarato?
)
Agora SaiDaqui! e vai trabalhar…

"Não mamãe, eu não quero sair daqui!"
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