Quebrar os pratos

Vivia da arte do silêncio que dói, fazia da indiferença sempre soberana e imperativa. Dar de ombros virou moda em sua vida, e não se importar ficou comum. Mas não era pra ser assim.

Ela não era assim. Sabia, tinha nojo. Dessa gente que não briga, não luta, não xinga, não discorda. Não se acorda, só concorda.

Cansou do marasmo e da poesia barata, sem rima, sem gosto, sem graça. Pegou os acordes todos e jogou no lixo. Fazer uma música sem ritmo pra dançar sem sapatos passou a ser seu maior objetivo.

Quebrou os pratos, só pelo prazer que o barulho e a bagunça lhe causavam na alma. Sentia-se sempre viva quando se jogava do penhasco nos sonhos estranhos que tinha.

Beijou na boca quem mais odiava, só pra tentar entender a linha tênue do amor e do ódio. Contrariou os pais, apenas para ser lembrada.

Cansou de tudo pronto, foi plantar sua horta. Jogou os meios amores no lixo. Preferiu ficar sem nenhum do que ter várias partes.

Deixou espaço pra ter um inteiro. Cabia até uma penteadeira (ok, essa foi péssima).

Trocou o salto alto. A cidade. O namorado.

Deixou as pessoas mal encaradas pra trás. Mexeu com um moço bonito na rua, queimou toda a janta que tinha planejado para os amigos. Saltou de pára-quedas, fez tricot com a avó.

Xingou o chefe, pediu desculpas ao amigo ofendido. Cuidou de si e se importou menos com os outros.

Passou a fazer o que gostava, o que lhe dava vontade. Passou a se amar.

E daí em diante, foi amada por como nunca havia imaginado que alguém conseguiria. Encontrou amor na arte de não mais desapegar-se das pessoas, e sim das coisas.

@amanda_arm dia 4 de julho de 2011
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Sensações Adversas

chuva31

Abro a janela pra vê-la cair fina. Deliciosamente silenciosa e fria.

Ela sempre foi sinônimo de silêncio, meditação. De música cantada com os olhos. Abraços dados em gotas.

Da tristeza errada, carregando o corpo com saudade de outra metade que não existe. De uma vontade incompleta daquele sei-lá-o-quê com cheiro de baunilha.

De pipoca, filme, algodão doce e sonho de padaria.

chuva-casal

Ninguém deve gostar tanto de chuva quanto eu. Do cheiro de avô-anjo que ela me traz. Da memória de um beijo que nunca existiu.

Peço que me falte sempre guarda-chuva. Que ela me molhe sempre que precisar lavar a alma. E cante para eu dormir em noites quentes.

Tomara que eu a odeie por um segundo, enquanto penso que ela estragará meus sapatos novos; e que no segundo seguinte eu me lembre que, na verdade, prefiro mesmo andar descalça.

E que as nuvens nos lembrem sempre que carregar memórias ruins é opcional. Pra gente ver com os olhos como elas ficam mais bonitas depois de chover, e lembrar que tudo aquilo que foi lavado por ela já não deveria estar ali de qualquer jeito.

Que para alguns, ouvi-la seja sinônimo de contato com Deus. Ou Jah. Ou Buda. Ou Guaraci. Ou Zeus. Ou qualquer forma de bem superior. E que para outros, ela não seja nada além de incômodo, forçando-os lembrar que vez ou outra faz bem mudar os planos.

Mas que ela nunca passe despercebida. Que por mais adversas sensações que a mesma chuva possa causar nas pessoas, indiferença NUNCA seja uma delas.

banho-de-chuva

PS: SaiDaqui!

@amanda_arm dia 2 de agosto de 2010
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Explicação

Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que as palavras.
As pessoas até se irritavam, (irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito), com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá explicando sozinha.

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer “eu deixo” é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.

Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da placa “perigo” o desejo vai e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero…Também não. É um desaforo… Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?

Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.

Dreaming_Girl

Não sei quem escreveu, mas AMEI. Agora SaiDaqui!

@amanda_arm dia 2 de dezembro de 2009
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Indiferença

Pergunte à qualquer criança qual é o contrário de amor.

A resposta será rápida: ódio.

Simples como saber qu eo contrário de branco é preto e o contrário de alegria é tristeza.

O tempo passa, e da pior maneira possível, ela descobre que estava completamente enganada. Aprende que amor e ódio, andam mais juntos do que se pode parecer. E que a linha entre eles, é mais tênue do que qualquer adulto já ousou tentar entender.

Notem: quando pequenas, crianças theo-24 cr são fofas, mimadas e paparicadas ou repugnantes, de tão arteiras e muito repreendidas. Em resumo, amadas, ou odiadas.

Até que o tempo passa um pouco, os hormônios ficam à flor da pele, elas se apaixonam e aprendem da pior maneira possível que o contrário de amor, é na verdade, indiferença.

Porque odiar alguém, implica em assumir que aquela pessoa existe em sua vida, e provoca sensações (mesmo que ruins) em sua pessoa. É assumir que o outro te incomoda, e provar sem dizer nada pra ninguém, que você sente algo por aquela pessoa (de novo, mesmo que algo ruim).

Indiferença não. É um simplesmente não notar a existência de outrém. É Ignorar… Machucar sem nem saber que o faz.

Amor é praia ensolarada. Ódio é praia nublada. E indiferença, exílio no deserto.

indiferença

@amanda_arm dia 24 de setembro de 2009
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