Para ela, seria apenas mais uma sexta-feira qualquer: Saiu do trabalho exausta, e enquanto dirigia para casa, recebeu uma mensagem dele no celular.
“Coloque sua melhor roupa. E prepare-se para surpreender-se. Te pego às 21h”
Sentiu o coração quase saltar pela boca, num misto de alegria e curiosidade. O que será que ele estava aprontando? De qualquer maneira, quando ele chegasse para pegá-la, ela estaria deslumbrante.
Chegou em casa, acendeu um incenso, e ligou a água da banheira para encher enquanto escolhia as trilhas sonoras de seu gosto para aprontar-se. Ligou a hidromassagem, colocou seus melhores sais de banho, acendeu uma vela, apagou as luzes, esperou que a água esquentasse e então banhou-se.
Perdeu-se em pensamentos, tentando imaginar o que ele estaria planejando para aquela noite. Desistiu de tentar adivinhar e saiu da banheira, dançando ao som de Pearl Jam.
Passou hidratante, desodorante, perfume. Optou pelo vestido preto: curto, básico, lindo. Admirou-se no espelho por alguns instantes, e então colocou os sapatos: um salto alto lindo, também simples e chique.
Secou suas longas madeixas castanhas, deixando-as levemente ondulada nas pontas. Maquiou-se de modo a não ficar exagerada, nem simples demais. Deu uma última olhadela no espelho, e o interfone tocou. Ele havia chegado.
Agarrou sua bolsa e saiu cheia de curiosidade. Ele ficou estupefato ao vê-la. Fez até ela dar uma voltinha para admirá-la melhor. Ela notara que ele também estava lindo: vestia social, e complementava com um blazer bege.
Caminharam até o carro, ele abriu a porta para ela, e pediu que ao entrar, colocasse a venda que estava cuidadosamente colocada no banco. Dirigiram por uns 20 minutos, em silêncio. Ela mordia os lábios de curiosidade.
Finalmente ele estacionou. Guiou-a pela mão. Ela só pôde perceber que entraram num elevador. Ao saírem, ele a colocou sentada numa cadeira e só então deixou que ela tirasse a venda.
Seus olhos mal podiam crer no que viam: Ela estava numa mesa de jantar, colocada no centro da cobertura de um prédio, delicadamente arrumada com uma única rosa de centro. À sua volta, luzes brancas como as de pisca de Natal por toda a parte, criando um clima incrivelmente romântico. Ao fundo, um som doce e melódico de violino. Ela quase chorava de tanta emoção.

Ele sentou-se à sua frente, e fez um sinal com a mão. Um garçom trouxe o prato de entrada: Uma salada ceasar divina, com vários tipode folhas, molho de queijo, mostarda e mel, coberta com iscas de frango, croutons, azeitonas e tomates secos. Vinho branco.
Conversaram um pouco enquanto terminavam a garrafa de vinho. Riam feito adolescentes relembrando de sua história de amor sofrido. Lembraram de tudo que já pertencia ao passado, e comentaram como era bom terem superado tudo aquilo juntos. Tinha fortalecido o amor de ambos.
Com outro gesto dele, o garçom trouxera agora o prato principal: Salmão com alcaparras ao molho de maracujá, acompanhado de arroz branco e batata sauté. Era uma explosão de cheiros, toques, olhares, paladares e sentimentos para uma noite só. Ela ainda estava atônita. Mais uma garrafa de vinho se foi.
Depois de um momento de silêncio, ele levantou-se de seu lugar e colocou-se de joelhos à sua frente. Tirou do bolso uma caixinha vermelha, abriu-a e disse a frase que ela acabara de notar que ele ia dizer: “Quer ficar do meu lado pra sempre?”
Não preciso dizer que as lágrimas já escorriam involuntariamente, enquanto ela ria de felicidade e dizia sim repetidamente, abraçando-o e beijando-o como se fosse criança novamente e tivera acabado de ganhar o melhor presente do mundo. De fato, era o melhor presente do mundo.
Ele disse que a amava demais. Que ela o fazia feliz como ninguém mais ousou fazer. Pediu então a champanhe. Celebraram sozinhos. Apenas a lua e as estrelas eram testemunhas daquele casal em felicidade plena.
Sentaram-se novamente e comeram a sobremesa: Petit Gateau (o favorito dela). Não conseguiam parar de sorrir.
De fato, aquele tivera sido o melhor Petit Gateau do mundo. Pra sempre. De paladar nfinitamente inesquecível.

Feliz Dia dos Namorados! E SaiDaqui para aproveitar com seu amor!
Onze de agosto de 2004. Meu vôo sairía às 20h30.
A despedida dos pais foi horrível. Chorei mais do que deveria, acho que os assustei um pouco. Nunca fui boa em despedidas. Era uma mistura de tristeza e alegria inexplicável.
Entre lágrimas e abraços, não teve mais jeito: Passei pelo portão de embarque. Agora não tinha mais volta. E eu estava sozinha.
Os 20 minutos que fiquei esperando para embarcar no avião foram bastante tensos. Decidi esperar quieta. Sentei, respirei fundo e fui tentando me acalmar. Sabia que ficar nervosa só ia piorar a situação.
No avião, haviam vários outros intercambistas brasileiros que desbravariam os Estados Unidos da América. Uma delas sentou-se ao meu lado. “Que legal!” – Pensei. E puxei papo.
Ela era morena, com cabelos curtos e encaracolados. Tinha um sotaque puxado do Mato Grosso do Sul. Vestia uma camiseta com a bandeira do Brasil e um coletinho com estampas de bandeiras também.
Conversamos um pouco, mas ela estava tão nervosa que não conseguia se concentrar muito na conversa. Por fim desisti e decidi ouvir música. Por um momento achei estranho eu mesma estar tão calma.
Logo serviram o jantar. A aeromoça passava perguntando :
“- Chicken or meat?” e a menina ao meu lado se desesperou. Traduzi para ela, disse que ficasse calma. E pedi frango para ambas.
12h num avião. Com escala no Hawaii.
Cheguei no aeroporto de Los Angeles exausta e maravilhada.
O pessoal responsável pelo intercâmbio estava à nossa espera, e nos levaram pro acampamento de boas-vindas, onde esperaríamos nossas famílias hospedeiras nos buscar.
Pessoas de todos os cantos do mundo. Deliciosamente complicado.
Nunca vou esquecer. E você? Conte sobre uma primeira impressão, ou SAIDAQUI.
Ela o avistou de longe. Ele estava sentado, encolhido num banco de praça, com uma mão no colo.
Ao seu lado, um pacote de biscoitos. E havia desprezo em seus olhos.
Ela sentiu o rancor ao longe, e decidiu passar mais perto, só de curiosa que era.
Conforme se aproximava, notava que todas as pessoas reparavam e olhavam para ele de maneira diferente. E que ele respondia com o mesmo olhar rude, às vezes até com palavras ácidas.
Percebeu então que ele não possuía um dos braços, e entendeu na hora o que se passava.
Era um senhor de mais ou menos 40 anos de idade. Grisalho, magro, bem afeiçoado e vestido de maneira casual com velhos jeans e camiseta creme. Uma das mangas estava amarrada.
Engraçado como tempo e desdém enrijece o coração das pessoas. Parecia que ele estava cansado daquele mundo de preconceitos, onde todos olhavam para ele como uma aberração qualquer.
Ela decidiu sentar-se ao lado dele. Pegaria o próximo ônibus. O trabalho poderia esperar.
Disse um bom dia simpático, e não obteve resposta. Ficou em silêncio por tempo indeterminado, até que ele iniciou uma conversa:
“ Quer um biscoito?”
Ela negou educadamente, alegando que já havia tomado café da manhã.
“Desculpe pela grosseria. É que não estou acostumado com pessoas sendo simpáticas comigo” – Ele acrescentou.
Ela assentiu com a cabeça, e disse que entendia. Contou a história de sua irmã mais nova, um anjo especial que papai do céu enviou pra ela cuidar. Contou das aflições que passaram, explicou a síndrome dela pra ele. E finalizou dizendo como se sentia mal todas as vezes que alguém a olhava daquele jeito diferente.
Contou com aperto no coração quantas vezes ela mesma sentia vontade de xingar ou agredir aquelas pessoas preconceituosas que a olhavam com desdém. E de como ela precisou se segurar em todas elas.
Detalhou o máximo que pode como a pequena irmã a abraçava quando sentia vergonha de ser “diferente” e chorava dizendo que aquilo não era justo. E de como ver aquela cena sempre partia o seu coração. Acho que se ela pudesse, trocaria de papéis com a pequena, só para não vê-la chorar daquela forma.
À essa altura, o homem estava com lágrimas nos olhos. Perguntou se podia não dizer nada.
Ela apenas sorriu. Desejou-lhe um bom dia, e disse que não ligasse pro que os outros pensassem. Mandou-o buscar felicidade dentro de si mesmo, e de quem não ligava por ele ser especial.
Foi embora. Não disseram mais nada.
No dia seguinte, lá estava ele, no mesmo lugar. Mas com semblante muito melhor. Ele a avistou de longe, deu um largo sorriso e gritou: “Bom dia menina!”. Ela acenou com a cabeça e foi trabalhar contente.
Definitivamente, pessoas especias são mais normais do que você imagina.

SaiDaqui!