Era a rainha das escolhas erradas, e agora pagava pelos erros de outrora. “Não é justo!” pensava ela enquanto se dava conta que também já fez isso com outros, e sentia corar de vergonha por isso.
Justo agora, que aprendeu a fazer as escolhas certas. Mas como diria sua avó, “a vida não espera que a gente aprenda” e continuava então sua jornada sofrida rumo ao amor.
Aliás, já não acreditava tanto assim que ele ainda existisse. Baseando-se em cálculos estatísticos de todo amor que deu, somado com todo amor que viu outras pessoas doarem, dividido pelo número de vezes que viu esse amor ser jogado fora e subtraindo-se a dor de todos eles que foram embora, o resultado ainda era -1 pedaço em seu coração.
Decidiu que agora ia fazer diferente: Nada de emendar o fim de um relacionamento no começo de outro. Agora ela sabia que precisava, (e no fundo até queria) ficar sozinha. Reinventar-se. Redescobrir-se. Amar-se.
No começo foi bastante difícil: Apegava-se aos amigos e não parava em casa. Não queria sentir aquela solidão toda lhe batendo na cara. A casa era fria e deserta demais.
Até que aos poucos, a “obrigação” em sair de casa tornou-se pura diversão mesmo, e logo ela passou a a conhecer muita gente diferente e divertida.
Mais um tempo, e aceitar sua presença era até agradável. Aproveitava para ler livros, ouvir suas músicas favoritas, fazer alguns trabalhos manuais e escrever suas histórias malucas sobre princesas que só encontravam seus príncipes quando paravam de procurar por eles desesperadamente.
SaiDaqui!
Desejava queimar todo e qualquer conto de fadas que falasse de príncipes encantados. Príncipes não existem. Ela bem sabia. Não existem. E ponto final.
Ninguém contou que a Branca de Neve tem quatro filhos impossíveis, um cachorro, e um marido que bebe. Nem que eles vivem tão afastados na floresta, que só vêem civilização uma vez por mês, quando viajam de charrete.

Ela olhava outra vez os sapatos espalhados pela casa. Os vários copos que ele sujara para tomar apenas água. A toalha molhada em cima da cama. A tampa do vaso sanitário levantada. E os restos de comida que se divertiam no chão da sala.
Estava um pouco enraivecida devido aos dias de tensão pré menstrual (TPM = Tocou ou Perguntou, MORREU!), por assim dizer.
Lembrou de quanto caçoaram dela. Do quanto aquela situação era clichê. E notou que amar dá trabalho. “Como é que tem mulher desesperada por isso?” – Disse baixinho enquanto ele dormia.
Pensou que deveriam ensinar na escola como seria a vida pós junção de duas pessoas. Achava cafona pensar que a falta de atitude na maioria dos homens vêm de berço, quando as mães criaram pequenos príncipes incapazes de escolher as próprias roupas, e mais tarde, fritar um ovo.
E quando estava prestes a explodir em hormônios, assistiu-o se contorcendo na cama, virando e procurando-a ao seu lado. Deixou escapar um riso abafado quando percebeu que ele agarrara o travesseiro de modo a sentir seu cheiro mais perto de si.
Respirou fundo, e tomou seu café da manhã pensando em como ela já era nada sem os sapatos espalhados pela casa, os lençóis fora do lugar, o sofá cheio de farelos e ele perguntando onde estava tal coisa sem enxergar que estava sempre embaixo do próprio nariz.
Corrigiu-se: Amar não dá trabalho.
Vestiu-se satisfeita por saber que príncipes encantados não existem. Sentiu que quem ela sempre quis estava ali, dormindo em sua cama. Era realidade (uma realidade que roncava, mas isso não fazia a menor diferença). Ela o amava.
Deu-lhe um beijo de bom dia, e saiu para trabalhar, na esperança de encontrar a mesma deliciosa bagunça quando voltasse.
Agora SaiDaqui!