Odiava confessar, mas adorava a inspiração que a solidão lhe causava às vezes.
Parecia uma máquina de criar textos românticos, histórias inventadas, amores não existentes. Sentia-se segura no mundo de sonhos que fazia colorido em volta de si sempre que o dia ficava em tons de cinza.
Era só pra ela que ele existia. Talvez se fosse pensar bem, ela nem queria que ele existisse no mundo real. Porque ali ele necessariamente teria defeitos e provavelmente não a faria feliz assim, como fazia nas noites de sono calmo e tranquilo.
Talvez o mais legal de tudo era o fato de ele não existir. Porque assim ele podia ter pra ela, uma fisionomia diferente por semana. Um trejeito diferente por dia, e uma surpresa apaixonada a cada manhã.
Sua mente viajava em velocidades tão grandes que as mãos já não acompanhavam. Engasgava palavras contraditórias, cheias de fervor e sentimento que lhe transbordava. Gostava de colar no papel todo aquele amor que tinha guardado no peito e ainda não sabia pra quem mostrar.
Gostava de inventar caminhos a trilhar. Em poucos minutos, já tinha sido mãe solteira, ficado pra titia ou se divorciado 4 vezes. No fim das contas era grisalha, ainda cheia de amor pra dar.
Sempre se imaginava com brilho nos olhos e sorriso nos lábios. Era seu maior desejo ficar assim pra sempre.
Não quer dizer que ela não amava a vida real: pelo contrário. Era dali que surgia tanta imaginação. Sabia que ia encontrar alguém especial um dia.
Enquanto isso, fazia textos em doses homeopáticas e granuladas, porque achava que nem o papel aguentaria impresso em si tanto sentimento. Só escrevia quando transbordava.
O problema é que transbordava quase sempre. De amor, de esperança ou de solidão.
Mais uma terça-feira qualquer na minha vida, com mais uma conversa cotidiana de MSN com um amigo…Conversávamos sobre como meu ano de 2009 tem sido conturbado e sobre as mudanças e reviravoltas que minha vida tem dado nos últimos tempos (e acreditem: não para!)
Quando menos se esperava, a conversa foi se tornando absurdamente viajada.
E falamos do lado bom da saudade.
Porque no fim das contas, saudade é nada mais que a prova de que algo bom aconteceu um dia, e tempos depois, faz falta. É nostalgico.
Claro que tem a parte triste, de não ter aquela situação boa ali, no momento, mas acima de tudo, sentir saudade é sempre bom.
Na maioria das vezes nos faz chorar. Mas eu também tenho minha teoria do choro.
Porque chorar, nada mais é do que a emoção não caber no corpo, e transbordar.
Eu chorei quando meu avô-herói morreu, porque parecia que cada entranha, cada milímetro do meu corpo sentia tanta tristeza e tão profunda, que eu ia explodir se não chorasse. A tristeza transbordou de mim, em forma de lágrimas tristes.
Chorei quando voltei do intercâmbio nos Estados Unidos, porque ao ver todo mundo ali no aeroporto me esperando, foi como evaporar a saudade de um ano em milésimos de segundo, e preencher todos os meus X (claro que não vou falar meu peso) kilos de pessoa em alegria instantânea. Não coube. Eu chorei. Vazou alegria.
Dizem por aí que homem não chora. Não chora bosta. Nem que seja de dor. Claro que a maioria não tem esse sentimentalismo todo (apesar da maioria tentar esconder, hehehe). Tomem um chute nas bolas, e saibam que homem chora sim.
Você, homem, mulher, ou qualquer outra coisa não definida (LOL): um dia você não vai caber em si. E chorar. De alegria, de tristeza, ou de dor.
Como todo mundo sempre fez.
Porque transbordar sentimento, é parte da natureza humana.

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