Já não sabia andar descalça. Há muito que tinha medo de tirar os sapatos.
Sentir o chão frio embaixo de todo o peso de seu corpo lhe causava calafrios. Lembrava como se fosse hoje da última vez que tentou correr descalça pela grama: pisou em espinhos. Cicatrizaes numerosas e doloridas se formaram, quase como um alerta instantâneo e visual para que ela não mais tentasse.
O medo de se machucar tomou conta não somente dos pés, mas de cada entranha de seu corpo. Desistiu de ser uma pessoa livre para ser escrava do próprio medo de se machucar. Deixou de fazer tantas coisas que antes gostava tanto, só para não correr o risco de sentir aquela dor novamente em sua vida.
Passou por anos a fio temendo as possibilidades mais remotas de ter mais cicatrizes. Visíveis ou não.
Afastou pessoas que realmente a queriam bem, e se aproximou de pessoas igualmente medrosas. Era muito mais fácil conviver com elas.
Dos todos sonhos todos que tinha, deixou ficar em sua vida apenas aqueles de padaria. Transformou a vida em pura e mera sobrevivência.
Até que se viu doente. Talvez todo aquele sentimendo guardado por tantos anos tenha lhe feito mal. Afinal, ela nunca fugia da rotina. Nunca fazia nada perigoso. Nunca fazia nada fora do comum. E por isso, um câncer lhe tomou o estômago. Mesmo com tantas explicações médicas, ela entendeu que no fundo, era o preço por ter desistido de viver intensamente como antes fazia com um sorriso no rosto.
E decidiu que não era tarde demais. Que nunca seria tarde demais.
Soltou os cabelos, levantou o rosto, enxugou aquela lágrima tímida que lhe escorria pela buchecha esquerda, tirou os sapatos, abriu um sorriso e foi para a casa descalça.
E quando todos a olharam com olhos de estranheza, foi que ela mais se sentiu feliz e realizada em toda sua vida. Tinha finalmente começado a viver ali, no fim de tudo.
Tem hora que me sobra tanta falta.

Como se um abraço de mãe curasse tudo. Ou um beijo de avô que já virou anjo.
Talvez se eu andasse na grama com os pés descalços; ou se dançasse na chuva fria, rodopiando como se não houvesse amanhã, as coisas ficariam mais coloridas.
Se eu corresse atrás do arco-íris, ou meditasse no topo da montanha…Se eu pulasse numa cachoeira, ou jogasse futebol de botão com o velhinho do banco da praça. Como se me faltasse o ar, me sobraria amor pra dar a vida inteira.
Como se tudo que eu vivi até agora fosse só uma pequena parte de tudo que eu ainda sinto falta. Como se ligar pro meu pai ou brincar no balanço do parque fosse acalmar meu coração.
Talvez se eu fechar os olhos bem forte, e ouvir a música que vem do silêncio, minhas preces sejam ouvidas. Talvez elas seriam ouvidas de qualquer forma, no meio do barulho delicioso que as crianças fazem quando toca o sinal do intervalo aqui do lado do escritório.
Talvez se amor fosse sempre correspondido, e na mesma intensidade. Se nunca houvesse briga, nem intriga.
Ou se amizade não conhecesse distância. Se brincar de pique-esconde fosse eterno. Algodão doce, ah, se fosse infinito.
E se eu chorasse? Escrevesse?
E se eu gritasse até enrouquecer, até enlouquecer à mim? À todos?
E se eu tranformasse tristeza em música? Felicidade em estilo de vida, talvez?
E se todos nós pudéssemos viver assim, com sobra de amor? De dinheiro? De sorrisos?
E se tudo fosse mais fácil do que parece? Aí sim, seria só fechar os olhos e lembrar como é gostoso viver.
SaiDaqui!
Um dia me disseram que a tempestade que tudo destrói, também serve pra molhar a terra e fazer florescer novos frutos.
Que situações ruins nos devastam, mas ao mesmo tempo trazem amigos, lições e novos afetos.
Também me disseram que por pior que pareça, nem tudo está perdido, e que pouco a pouco se erguem novos pilares de relacionamentos.
Confusões são boas…Sempre nos dão aquele chachoalhão necessário. Aquela reviravolta inesperada.
Tudo sempre muda, renova-se. Algumas vezes a gente sofre, outras a gente fica feliz…Inevitável passar por isso.

Viver, saca?
Mas quando acontece algo, as pessoas sempre nos perguntam…”O que vai ser de você agora?”
Ué! A mesma coisa de sempre, só que um pouquinho diferente.
Agora SaiDaqui!
Mudar faz bem.
Sempre fez. A gente que é bobo, e na maioria das vezes morre de medo de mudanças…Fica açoitado, escaldado, amedrontado.
Eu, por exemplo, nos últimos dias, mudei de emprego, de cidade, de estado, de vida. Passei a ter responsabilidades diferentes.
E isso tem me feito muito bem.

Reorganizar-se deveria sempre fazer parte de nossos planos. Porque de um dia pro outro, o que era prioridade já não é mais. E o futuro que sempre quisemos, passa a não ser mais tão atrativo. É o fluxo normal e natural do que passamos sempre. Chama-se VIVER.
Chama-se não ser BORING.
E quando mudanças vierem, pense sempre em qual caminho tomar. Não aja por impulso, mas não viva com medo delas. Oportunidades desperdiçadas jamais voltarão a bater em sua porta.
Se dê algumas chances. E SaiDaqui.