Como a comida mudou minha vida

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Se alguém me dissesse na adolescência que hoje eu teria um pequeno empreendimento de congelados na cidade de SP, eu daria risada. Na infância/adolescência não fui uma pessoa interessada por culinária, até porque, nunca tive muito incentivo. Minha mãe nunca foi das maiores fãs da cozinha (fazia mais por necessidade do que por prazer, sempre teve uma vida muito corrida).

Resumindo, sou filha de uma geração que não incentivava suas crianças a (literalmente) colocar a mão na massa. Cozinha não era lugar de criança, elas só atrapalhavam.

Pior que isso: eu era enjoadíssima pra comer! Odiava legumes, verduras e frutos do mar em geral. Não comia nenhuma carne com muito molho e definição de felicidade era bife e batata (ambos fritos) com arroz e feijão. No máximo um tomate pra acompanhar (o famoso paladar infantil).

Eis que, espírito livre que sempre fui (fato relevante: minha irmã é deficiente, então desde muito cedo, tive que aprender a me virar sozinha porque involuntariamente, todas as atenções foram abruptamente voltadas à ela), aos 16 ganhei uma bolsa de estudos e fui fazer intercâmbio na divisa dos Estados Unidos com o México.

Agora, imagine você uma adolescente enjoada pra comer, absorvendo tudo novo (desde o idioma até a culinária) de duas culturas diferentes à dela ao mesmo tempo: era me adaptar ou morrer de fome. Passei a provar algumas coisas (confesso, às vezes por falta de opção) e fui redescobrindo meu paladar. Ainda assim, como era o país da comida pronta, por lá tampouco tive incentivo da minha família hospedeira para cozinhar.

Ao voltar para o Brasil, já com 17 pra 18 anos, por mudanças na dinâmica familiar muito traumatizantes, decidi que era hora de eu sair da casa dos meus pais (aquele ano de distância me fez ainda mais independente e dona de mim) e seguir meu caminho (afinal, já estudava em uma faculdade pública, trabalhava numa multinacional e o que eu ganhava dava pra sobreviver sozinha no fim do mês).

Aluguei um cubículo nos fundos da casa de uma senhora num bairro de segurança duvidosa, comprei uns móveis caindo aos pedaços e fui feliz da vida, morar sozinha. Até o estômago roncar e eu lembrar que nunca havia fritado um ovo em toda minha vida. Cheguei ao cúmulo de ligar pra minha mãe e perguntar se gelatina ia no forno (ela ri de mim – com razão – até hoje sobre essa história).

“Tudo bem” eu pensava. “Tem miojo, pipoca de microondas, lasanha congelada, comida enlatada…eu vou sobreviver”. E até que sobrevivi mesmo. Por dois meses.

Obviamente, dois meses com uma alimentação “maravilhosa” dessas e sem dinheiro pra comer na rua em todas as refeições, eu passei mal. Fui parar no hospital com gastrite severa, estava anêmica, exames de sangue todos alterados.

Passado o susto, decidi que era hora de aprender a cozinhar. Eu já era adulta e não tinha cabimento não saber fazer comida caseira. Passei a assistir todos os programas de culinária que existiam na TV aberta. Pesquisava milhares de receitas e técnicas simples na internet por aí.

Aprendi fazer arroz. Queimei feijão. Me arrisquei a fazer uma carne no forno. Li sobre temperos…e foi assim, meio que na necessidade, que aprendi que eu AMAVA cozinhar. Testando, lendo, arriscando, cada vez eu passava mais tempo dentro de uma cozinha, ADORANDO aquilo tudo.

Foram anos recebendo pessoas em casa (afinal, eu era a mais nova da turma que já morava sozinha e não tinha pais pra controlar horários) e usando os amigos de cobaia para novas receitas. Até que eles mesmos se passaram a oferecer para testar meus pratos, já que -quase- sempre o resultado era bem saboroso.

Nessa jornada de descoberta de sabores, cheiros, cores, temperos e ingredientes, surgiram os “cara de pau”: amigos mais próximos que, desprovidos de vergonha na cara, passaram a me pedir para fazer a marmita da semana e entregar congelada pra eles. Basicamente, eles me traziam os potes, pagavam o custo do mercado e uma cervejinha no final de semana pela mão de obra.

E era tudo lindo, até que a coisa foi tomando proporções inesperadas: os amigos dos amigos, os familiares dos amigos, as namoradas dos amigos, os meus familiares (A MINHA MÃE!) também passaram a me procurar para pedir marmitinhas congeladas.

Nessa altura, eu tinha apenas duas opções: falar não ou oficializar meu negócio e cobrar pela minha mão de obra. Como dinheiro nunca sobrou, escolhi a segunda opção.
Um amigo muito próximo batizou o negócio de “Armelícias” (as delícias da Amanda Armelin) e eu AMEI o nome. Ele me ajudou com branding, e nessa altura, eu já entendia de recipientes freezer/microondas, estava fazendo cursos de congelamento correto de alimentos e criando as redes sociais do negócio.

Assim já se passaram 5 anos, e hoje, sou tão apaixonada por comida quanto antes (se não ainda mais). Armelícias segue vendendo firme e forte na informalidade e me ajuda DEMAIS na renda extra para os boletos do final do mês.

Agora, apesar de ainda trabalhar em horário comercial num job CLT, meu foco é cada vez mais sair da informalidade e passar a viver só disso: já vendo via aplicativo de comida, tenho clientela fixa, tenho números que não mentem. Eu sou a prova viva que quando a gente colocar amor na comida que faz, as pessoas sentem (e gostam, e voltam).

E foi assim que a comida mudou minha vida. Em vários sentidos.
E, se você quiser provar meus pedaços de amor solidificado em comida: armelicias@gmail.com

 

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autor: Amanda Armelin

Bocuda, nerd, tatuada. Cervejeira de carteirinha e louca por cachorros (principalmente bulldogs). Além do sorriso no rosto, mantém paixão absoluta por bacon e sexo.

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