Solidão de mim

Leia o texto ao som dessa música.

Girl sitting on pier and lookingat the river

Tem dias em que o silêncio pesa mais do que deveria. Não é um silêncio vazio; é um que vem cheio de memórias, de conversas interrompidas, de risadas que ainda ecoam em algum canto da casa. É nesses dias que eu sinto você existir de um jeito que não cabe mais no presente, mas também nunca foi embora de verdade.

A gente virou isso: uma presença que não se toca, uma certeza que não se vive.

E talvez não haja mais espaço mesmo. A vida foi ocupando todos os cômodos: o filho, o trabalho, as contas, o cansaço e sobrecarga que chegam antes da noite terminar. Eu me tornei tantas coisas ao mesmo tempo que às vezes me procuro e não me acho. Mãe, responsável, forte… sempre forte. Mas ser mulher ficou em algum lugar entre o fogão, o colo do filho, o celular e a lista de tarefas que nunca termina.

Essa solidão que ninguém vê é a que mais dói. Não a de estar sozinha: a de nunca poder simplesmente ser eu, pra mim. Porque sempre tem alguém chamando, precisando, dependendo. Até o meu tempo livre vem com um pequeno par de olhos me acompanhando. E eu amo isso, não me entenda mal. Amo com tudo o que sou. Mas, em algum lugar silencioso, existe uma saudade de mim mesma.

E talvez você também more aí.

Não como antes. Não como algo possível, palpável, concreto. Mas como uma lembrança viva de quem eu fui quando ainda cabia em mim ser leve, desejada, inteira. Como uma prova de que existe em mim algo além do que a rotina permite mostrar.

Talvez a gente nunca volte a ser. E talvez nem devesse.

Mas eu sei — com uma certeza tranquila, quase doce — que o que existiu não se apaga. Ele muda de lugar, de forma, de intensidade… mas continua ali. Quieto. Resistente. Como uma chama pequena que não ilumina mais o caminho, mas ainda aquece quando a noite fica longa demais.

E, de algum jeito estranho e bonito, isso precisa bastar, porque é tudo que eu ainda tenho de mim.

autor: Amanda Armelin

Bocuda, nerd, tatuada. Trator na cozinha e na vida. Sempre inundada de afeto e coragem.

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