Verdes

[Leia o texto ao som DESSA MÚSICA.]

Dezessete. Não sei ao certo se esse número diz respeito aos anos em que você já me conhecia de alma, acompanhando meus passos à distância como um torcedor silencioso e eufórico, ou se é a idade que senti pulsar no âmago quando te encontrei pela primeira vez — feito adolescente apaixonada, desarmada, inteira demais para quem já aprendeu a se conter.

Porque meu coração saltou à boca de ansiedade depois de entender (saber e sentir) que o verdadeiro nude que trocamos foi de alma. De histórias que se reconhecem, de conexões que parecem ter atravessado outras vidas. Há um bittersweet no efeito borboleta do que nossa vida poderia ter sido se, lá atrás, suas mensagens de admiração tivessem sido lidas com a entonação correta, com o peso e a delicadeza que só hoje sou capaz de compreender. Isso me corrói com a intensidade de quem sabia os números da Mega-Sena, mas apostou no concurso errado.

O primeiro abraço é calmo. Longo. Daqueles que não pedem pressa nem explicação. Ele carrega a certeza silenciosa de que é assim que se sente quando uma pessoa é a definição de casa. Contém cheiro, paz e também um tempero perigoso, desses que apimentam e atormentam a memória por décadas. O cavalheirismo toma conta sem esforço, e eu me pego surpresa ao perceber, pela primeira vez, o mínimo sendo feito com excelência: abrir portas, andar do lado de fora da calçada, puxar a cadeira, tomar a frente, pagar a conta. Logo eu, que nunca dei muita atenção a isso, me vi encantada pela sua forma de ser abrigo, segurança, chão firme.

Descansei do modo sobrevivência por algumas horas. Nossa conversa era natural, leve, divertida, às vezes séria — mas sempre honesta. E talvez infinita. Não exagero ao dizer que até o corpo sentiu a tranquilidade que há anos não reconhecia: me peguei pensando, quase rindo de mim mesma, “eu deveria estar alerta por não estar alerta?” E respondi em silêncio, com uma calma rara: não.

“Com você eu não sei nem abrir uma garrafa de água”, brinquei. Mas você sabia (nós dois sabíamos) que não era só brincadeira. E fez um trabalho delicado e amoroso ao não comentar a lágrima tímida que escorreu pelo meu rosto naquele instante. Você entendeu o peso que carrega um coração tantas vezes ferido por quem jurava amá-lo.

Na saída, seu cuidado em pedir algo para agradar meu filho, e sua naturalidade em segurar minha mão sem medo, sem vergonha, sem deixar espaço para o constrangimento sequer existir me trouxeram uma calmaria rara: a percepção de que você sabe amar o todo. Inclusive minhas partes quebradas. Talvez você não tenha percebido, mas ali também transbordou uma lágrima. Dessa vez, de alegria.

Você me deixou na porta de casa com a leveza de um coração que se assusta ao ser bem tratado. Com o amargo das escolhas erradas, do tempo perdido, e a serenidade profunda de saber que ainda existe muito amor no mundo. Porque, naquele momento exato, eu me senti cheia dele.

Levou um único encontro (e nem precisou de beijo) para eu entender que parte da minha felicidade talvez more em um par de olhos, verdes.

autor: Amanda Armelin

Bocuda, nerd, tatuada. Trator na cozinha e na vida. Sempre inundada de afeto e coragem.

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